Alto Hama

Orlando Castro jornalista CP 480
Uma biblioteca (pública) para quê?

Realizou-se ontem mais uma edição do Café Literário Itinerante na Biblioteca da Junta de Freguesia de Rebordosa (foto).

Há quase meio século, foi nos finais de 1975, como refugiado (retornados eram os meus pais) da guerra em Angola cheguei, com uma mão à frente e outra atrás, a Rebordosa. Como quase sempre acontece quando se chega pobre a qualquer lado, foram os pobres da família quem nos deu a mão.

Fui viver para a casa dos meus avós maternos, João de Sousa Freire – João da Carroça – e Matilde Ferreira, ali no lugar de Pensos.

Sem nada para fazer, comecei a pensar que seria adoptado por Rebordosa e que, por isso, deveria trabalhar por alguma coisa de útil para esta freguesia. Talvez por deformação social e ignorância, pensei que seria útil que Rebordosa tivesse uma biblioteca pública.

A ideia surgiu porque, penso, os livros me faziam falta. Os que tinha ficaram lá longe. Tão longe que só lá chegava pelo pensamento ou pela saudade. Além disso, tirando cafés e marcenarias, Rebordosa pouco mais tinha que ajudasse a alimentar o espírito.

Contactei por escrito diversas entidades, entre as quais a Fundação Calouste Gulbenkian. Esta, depois de analisar a ideia, disse que sim, que forneceria livros em quantidade, bastando para isso que uma qualquer entidade legal formalizasse o pedido e garantisse a existência de um espaço para o efeito. Naturalmente, e bem, não iriam fornecer livros a pedido de um anónimo cidadão.

Perante essa informação, escrevi à Junta de Freguesia de Rebordosa, explicando o que se passava e apresentando a proposta da Fundação Calouste Gulbenkian. Para obter uma resposta tive de fazer várias insistências, até porque a Fundação queria uma resposta.

Já em 1976, chegou a resposta da Junta, assinada por Luís Gonzaga Moreira de Sousa. Foi-me então explicado que Rebordosa não precisava de nenhuma biblioteca pública. Percebi então a razão pela qual os meus pais tiveram de, no início da década de 50, zarpar de Rebordosa para conseguir dar aos filhos algo mais do que a tradicional profissão de marceneiro.

A partir dessa resposta fiquei com a convicção de que nunca seria adoptado por Rebordosa. E tive razão. Uma terra que não queria ter uma biblioteca nunca poderia adoptar alguém que gosta de ler e de escrever.

Fiz então as malas e fui pregar para outra… freguesia. Vinha regularmente visitar os meus pais mas sempre como “estrangeiro”. Depois do falecimento de ambos equacionei a possibilidade de voltar a viver em Rebordosa, já não como “estrangeiro” mas como – diria – retornado/assimilado.

E assim aconteceu no final de 2019. Concluo hoje que se o arrependimento fosse dinheiro seria com certeza milionário.  Com excepção de (felizmente, digo eu) com as novas definições fronteiriças a Rua do Cruzeiro (onde moraram os meus pais e onde hoje vive uma filha minha) ter passado a pertencer a Lordelo, o ADN de Rebordosa continua a ser o mesmo. Civilidade a menos, arrogância a mais, onde pontificam minhocas que julgam ser jibóias, onde as pessoas são analisadas pelo que têm e não pelo que valem.

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