Alto Hama

Orlando Castro jornalista CP 480
Do enfermeiro Oliveira ao enfermeiro Lucas
A história, bem verdadeira e sentida, passa-se na então cidade de Nova Lisboa, em Angola, no fim da década de 60. O meu pai trabalhava na fábrica de cervejas da Cuca e era lá que eu ia ao médico, na altura o dr. Fonseca Santos. De quando em vez tinha de apanhar umas injecções. Até aqui nada de novo.
A enfermaria da Cuca era chefiada pelo Oliveira, já na altura em velhote que aliava o seu ar (era apenas isso) de poucos amigos a uma postura do estilo «aqui quem manda sou eu». E era mesmo ele que mandava.
Recordo-me que tinha pelo menos dois filhos. Um era médico, de seu nome Freitas de Oliveira, que gozava de alguma fama em Angola, nem sempre pelos grandes sucessos clínicos. O outro era um conhecido “criador” de cães especiais. Especiais porque às vezes até os pintava para serem diferentes.
Mas, voltemos ao velho enfermeiro Oliveira.
Eu, enquanto paciente e na altura talvez com 13 ou 14 anos de idade, não gostava que fosse ele a dar-me as injecções. Já era difícil aceitar a espetadela, quanto mais ser feita por aquele rezingão de bata branca.
Uma dez vezes, e a partir daí foi remédio santo, disse-lhe perante o ar preocupado do meu pai:
– Não quero que seja você a dar-me a injecção. Quero que seja o Lucas.
O Lucas era um enfermeiro preto que, em tudo, era o oposto do Oliveira. Simpático, cordial e sempre disponível para aceitar as birras dos putos com uma enorme dose de paciência.
– Porquê o Lucas? Perguntou o Oliveira com um ar ainda mais tempestuoso do que o habitual. Antes que respondesse, acrescentou: Sabes que quem ensinou o Lucas a dar injecções fui eu?
– Sei, respondi.
– Então? Interrogou o Oliveira com um ar triunfal.
– Pois. O meu pai também me ensinou a jogar as damas e agora perde comigo, respondi com a lata inconsciente de quem diz o que pensa (tal como ainda hoje).
Daí para a frente, e não foram tão poucas quanto isso, passei a ter um enfermeiro privativo: o Lucas Lukamba.
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