Alto Hama

Orlando Castro jornalista CP 480
Chade: O refúgio dos refugiados africanos

País anfitrião de mais de 1,5 milhão de refugiados enfrenta graves carências humanitárias, climáticas e de segurança; estima-se que 2 milhões de crianças enfrentem ou venham a sofrer de desnutrição aguda até Setembro de 2026. Plano Humanitário destina 986 milhões de dólares a 3,4 milhões de pessoas.

No meio da guerra em curso no Sudão, o Chade, o país que recebe o maior número de refugiados na África Central, viu uma ligeira melhoria na sua situação humanitária no ano passado. Entretanto, uma das nações africanas mais vulneráveis enfrenta dificuldades para apoiar 4 milhões de necessitados.

Combates e condições humanitárias provocados pelo conflito que eclodiu entre forças militares rivais em Abril de 2023 já deslocaram 14 milhões de pessoas. Os refugiados espalharam-se pelos sete países vizinhos do Sudão, de acordo com a ONU.

Poucos países sentem os efeitos da guerra em curso de forma tão intensa como o Chade. Actualmente, é o maior país anfitrião de refugiados per capita em África, de acordo com a Agência da ONU para os Refugiados, Acnur.

“O generoso acolhimento do Chade aos refugiados é um poderoso acto de solidariedade”, disse o Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, Barham Salih.

Mas, como o Chade, país sem litoral, acolheu mais de 900 mil refugiados sudaneses na sua fronteira oriental desde o início do conflito, 40% da sua própria população já precisa de ajuda.

Frequentemente chamado de “Torre de Babel do mundo”, numa referência aos seus mais de 200 grupos étnicos e 100 línguas, o Chade enfrenta desafios multifacetados.

Com mais de 42% da população vivendo abaixo do limiar da pobreza, o país está entre os mais pobres do mundo.

Actualmente acolhendo mais de 1,5 milhão de refugiados, o Chade continua a manter as suas fronteiras com o Sudão abertas, enquanto enfrenta choques climáticos e desafios de segurança.

A palavra Chade traduz-se, numa língua local, como “grande massa de água”, reflectindo a importância cultural do Lago Chade, que dá nome ao país. À medida que o lago continua a encolher devido às alterações climáticas e a outros factores, o país enfrenta grandes inundações que devastaram a sua segurança alimentar.

Só em 2024, as cheias destruíram mais de 432 mil hectares de culturas, o equivalente a mais de 600 mil campos de futebol. As enchentes afectaram quase 2 milhões de pessoas e expuseram fragilidades nas infra-estruturas de água e saneamento, com surtos de cólera registados em Julho do ano passado.

Com uma população em rápido crescimento, o Chade ultrapassa largamente a sua capacidade de recursos, num contexto em que as taxas de desnutrição são altamente alarmantes. 

Estima-se que 2 milhões de crianças chadianas, com idades entre os seis e os 59 meses, sofram ou venham a sofrer de desnutrição aguda entre Outubro de 2025 e Setembro de 2026, incluindo cerca de 484 mil casos de desnutrição aguda grave, segundo o monitor global da fome, a Classificação Integrada da Segurança Alimentar, IPC.

A situação de segurança é igualmente preocupante. Grupos extremistas violentos, incluindo o Boko Haram e afiliados, continuam a alimentar a instabilidade na bacia do Lago Chade, deslocando mais de 250 mil pessoas.

No norte do país, redes de tráfico e mineração ilegal de carvão cruzam-se com violência baseada no género e trabalho infantil exploratório. Com 87% da população refugiada no Chade composta por mulheres e crianças, estas preocupações continuam a agravar-se.

Desde Abril de 2023, o Governo do Chade e o Acnur ajudaram 67% dos refugiados do Sudão, devastado pela guerra, a instalar-se em assentamentos ampliados e recém-criados, onde refugiados e comunidades anfitriãs beneficiam dos serviços das equipas humanitárias.

As agências das Nações Unidas e os seus parceiros continuam a prestar assistência humanitária, tanto no Chade como no Sudão, a pessoas afectadas pelo conflito.

Em 19 de Fevereiro, o Conselho de Segurança da ONU deve discutir a crise em curso no Sudão, com destaque para a necessidade de pôr fim aos combates e aliviar o sofrimento da população, em particular face à violência generalizada contra mulheres e meninas.

Relativamente às necessidades, o Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários, Ocha, publicou o Plano de Acção Humanitária para 2026. O projecto indica que o número de necessitados no Chade diminuiu 42%, embora continue a ser elevado.

O plano prevê 986 milhões de dólares para apoiar 3,4 milhões de pessoas, incluindo 540 milhões de dólares destinados exclusivamente aos refugiados. Segundo a porta-voz da ONU, Stéphane Dujarric, os esforços irão concentrar-se nas regiões mais afectadas, incluindo o leste do país, a província do Lago e partes do sul.

“Perdemos o nosso dinheiro, os nossos familiares e vizinhos”, contou. A vítima explicou ainda que “alguns foram mortos, outros desapareceram e ainda estão desaparecidos.”

Em segurança fora do Sudão, Abdelkarim juntou as suas competências empreendedoras à ajuda financeira do Acnur e começou a fazer e a vender pão a partir da sua casa no campo de refugiados de Farchana. Desde então, abriu duas mercearias, um restaurante e emprega 12 outros refugiados.

Ele revelou que tem apoiado as mulheres refugiadas para que possam crescer juntos e para que ninguém fique para trás. O refugiado afirmou que é importante apoiar pessoas vivendo na mesma situação e ajudá-los a curar-se.

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