A farpa e a corrupção
Esta história foi-me contada, há mais de 50 anos, pelo enfermeiro Lucas que, à época, exercia a sua profissão na fábrica de cervejas Cuca, em Nova Lisboa (Huambo), onde também trabalhava (como marceneiro) o meu pai.
Então é assim. Num determinado consultório, um médico e o seu empregado enfermeiro, prestavam cuidados de saúde à população razoavelmente abastada. Todas as semanas um doente ia lá fazer o curativo a uma ferida que teimava, há meses, em não curar.
O médico, com a assistência do enfermeiro, fazia o respectivo curativo, o doente sentia imediatamente as melhoras, pagava e saía do consultório feliz.
No entanto, na semana seguinte estava de volta e a cena repetia-se. Foram vários os meses neste ramerrame.
No entanto, numa semana o doente apareceu no consultório e só lá estava o enfermeiro. O senhor doutor teve outros afazeres e deixou o estaminé entregue ao seu funcionário. O paciente disse que, sendo assim, voltaria noutro dia. No entanto, perante a insistência do enfermeiro (profissional habilitado para fazer o tratamento) concordou.
Findo o trabalho, o doente – como sempre – saiu satisfeito só que… nunca mais voltou.
Passados algumas semanas, no fim do mês, o médico chamou o enfermeiro e despediu-o. Perante a incredulidade deste, o senhor doutor explicou:
– Curaste definitivamente o doente que cá vinha todas as semanas, e esse é que é problema. Ao tirares a farpa que ele tinha na ferida, secaste a fonte de rendimento que te pagava o ordenado todos os meses.
Ora, a corrupção – seja em Angola ou em Portugal – é exactamente a farpa que – se retirada – secará o rendimento de uma vasta classe de dirigentes e seus acólitos, que medra impávida, impune e serenamente no seio do mesmo partidos que nos governam desde 1975.








